quarta-feira, 8 de junho de 2011

Vento engarrafado não sopra

Acho difícil de responder quando, descompromissadamente, me perguntam se acredito em Deus. É que geralmente a pessoa que fez a pergunta só está querendo um "Sim" ou "Não", e não exatamente que eu apresente uma tese teológica. Então costumo dizer que "Sim", mas sempre o faço com um certo nó na garganta, como se estivesse contando uma meia-verdade. Então aqui, com tempo e espaço, eis a outra metade da minha verdade:

Eu poderia dizer que sou agnóstica, e eu até que me enquadro bem na definição de agnosticismo da Wikipedia, mas morro de agonia desse termo. Segundo o seriado Community, um agnóstico é um ateu preguiçoso, e é exatamente essa a impressão que a palavra "agnosticismo" me passa: desleixo. Como se eu nunca tivesse parado pra pensar sobre o assunto e resolvesse usar uma palavra que virou moda. Em termos práticos é só que eu não tenho religião. Não encontro nenhuma que me convença, principalmente depois de todas as ótimas aulas de história que tive com minha professora marxista...mas o debate histórico sobre a religião é muito mais denso do que essa postagem pretende ser.

Apesar de eu não ter religião, admiro religiosos conscientes e não-extremistas, que conseguem aliar a poderosa força da fé com a razoabilidade. Sem falar no meu particular apreço por aqueles religiosos que conseguem entender o que significa estado laico.

Só que eu prefiro "definir" o Deus que suponho com um trecho d'um texto de Rubem Alves: "Deus é como o vento. [...] Não sabemos de onde vem nem pra onde vai. Mas não é possível engarrafá-lo. No entanto, as religiões tentam engarrafá-lo em lugares fechados a que eles dão o nome de 'Casa de Deus'. Mas, se Deus mora numa casa, estará ele ausente do resto do mundo? Vento engarrafado não sopra."

Deus é energia. Não é uma entidade antropomórfica coisíssima nenhuma. A questão é que é normal sentir necessidade de estabelecer contato com essa qualquer coisa transcedental, mas estabelecer esse tal contato com uma força abstrata é tão complexo! Até pratiquei ioga e meditação por algum tempo pra ver se eu conseguia me comunicar com o universo e coisa e tal, mas acabou sendo vago demais pra mim. Então resolvi esse problema de maneira muito simples: quando eu sinto vontade, eu falo com um amigo imaginário, que não me dá medo, não diz o que eu tenho ou não de fazer, nem exige respeito. Às vezes eu imagino como homem, às vezes como mulher e às vezes como Dragão da Sorte. Não há regras. É uma força que está tanto fora quanto dentro de mim à qual eu dou a forma que eu quiser e com a qual, sem maiores pretensões, eventualmente "estabeleço contato", seja conversando, pedindo, desabafando... e é reconfortante. 

Então é esse o Deus super alternativo ao qual me refiro quando digo "Sim". Dei uma limpada geral na enorme carga daqueles conceitos divinos herméticos e continuei usando a mesma simpática nomenclatura. Podem até achar que eu estou blasfemando, mas, com todo o respeito, tudo isso me parece muito mais autêntico, quiçá mais profundo, que a conduta de muitos cristãos de facebook, que adoram meter o dedo na cara dos outros e condenar, mas se limitam a repetir algumas orações decoradas e ir à igreja no domingo a contra-gosto.

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