Acho difícil de responder
quando, descompromissadamente, me perguntam se acredito em Deus. É que
geralmente a pessoa que fez a pergunta só está querendo um "Sim" ou
"Não", e não exatamente que eu apresente uma tese teológica. Então costumo
dizer que "Sim", mas sempre o faço com um certo nó na garganta, como
se estivesse contando uma meia-verdade. Então aqui, com tempo e espaço, eis a
outra metade da minha verdade:
Eu poderia dizer que sou
agnóstica, e eu até que me enquadro bem na definição de agnosticismo da
Wikipedia, mas morro de agonia desse termo. Segundo o seriado Community, um
agnóstico é um ateu preguiçoso, e é exatamente essa a impressão que a palavra
"agnosticismo" me passa: desleixo. Como se eu nunca tivesse parado
pra pensar sobre o assunto e resolvesse usar uma palavra que virou moda. Em
termos práticos é só que eu não tenho religião. Não encontro nenhuma que me
convença, principalmente depois de todas as ótimas aulas de história que tive
com minha professora marxista...mas o debate histórico sobre a religião é muito
mais denso do que essa postagem pretende ser.
Apesar de eu não ter religião,
admiro religiosos conscientes e não-extremistas, que conseguem aliar a poderosa
força da fé com a razoabilidade. Sem falar no meu particular apreço por aqueles
religiosos que conseguem entender o que significa estado laico.
Só que eu prefiro
"definir" o Deus que suponho com um trecho d'um texto de Rubem Alves:
"Deus é como o vento. [...] Não sabemos de onde vem nem pra onde
vai. Mas não é possível engarrafá-lo. No entanto, as religiões tentam
engarrafá-lo em lugares fechados a que eles dão o nome de 'Casa de Deus'. Mas,
se Deus mora numa casa, estará ele ausente do resto do mundo? Vento
engarrafado não sopra."
Deus é energia. Não é uma
entidade antropomórfica coisíssima nenhuma. A questão é que é normal sentir
necessidade de estabelecer contato com essa qualquer coisa transcedental, mas
estabelecer esse tal contato com uma força abstrata é tão complexo! Até
pratiquei ioga e meditação por algum tempo pra ver se eu conseguia me comunicar
com o universo e coisa e tal, mas acabou sendo vago demais pra mim. Então
resolvi esse problema de maneira muito simples: quando eu sinto vontade, eu
falo com um amigo imaginário, que não me dá medo, não diz o que eu tenho ou não
de fazer, nem exige respeito. Às vezes eu imagino como homem, às vezes como
mulher e às vezes como Dragão da Sorte. Não há regras. É uma força que está tanto
fora quanto dentro de mim à qual eu dou a forma que eu quiser e com a qual, sem
maiores pretensões, eventualmente "estabeleço contato", seja
conversando, pedindo, desabafando... e é reconfortante.
Então é esse o Deus super
alternativo ao qual me refiro quando digo "Sim". Dei uma limpada
geral na enorme carga daqueles conceitos divinos herméticos e continuei usando
a mesma simpática nomenclatura. Podem até achar que eu estou blasfemando, mas,
com todo o respeito, tudo isso me parece muito mais autêntico, quiçá mais
profundo, que a conduta de muitos cristãos de facebook, que adoram meter o dedo
na cara dos outros e condenar, mas se limitam a repetir algumas orações
decoradas e ir à igreja no domingo a contra-gosto.
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